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Segunda-feira, Junho 23, 2008 |
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Programa Sem Censura
Convidado de segunda-feira, 23 de junho de 2008
Pedro Paulo Monteiro – Mestre em Gerontologia
ASSUNTO: Vai falar sobre o livro “Envelhecer ou morrer, eis a questão”.
Para quem perdeu o programa na segunda-feira, transcrevo alguns trechos da entrevista:
A gerontologia tem o objetivo de dar um novo olhar para o envelhecimento e para a velhice, principalmente desconstruir crenças negativas. O envelhecimento é um processo que ocorre desde a concepção. Não somente as pessoas acima de sessenta anos envelhecem. Envelhecer é um processo de transformação, “ação que vai além da forma”. Ou seja, um dia fomos crianças, tínhamos um corpo, e hoje somos diferentes daquilo que fomos. O nosso corpo foi além daquilo que era.
Nós somos seres mortais, ou envelhecemos ou morremos. James Dean, por exemplo, não ficou mais velho, porque morreu cedo. Todos nós somos sempre o velho de alguém. Quando uma mulher de 25 anos de idade vai a feira, ela é chamada de tia pelo garoto que pede para carregar a sacola, com certeza ela já está sendo vista pela perspectiva do garoto como a velha dele. Chamou de tia, você é a velha!
Cada vez que nós nos olhamos no espelho pela manhã, nós apagamos os traços de ontem e construímos um novo olhar para o hoje. Se não fosse assim perderíamos a noção de quem somos. Só reconhecemos o nosso envelhecimento quando vemos a nossa fotografia de um passado distante. A escritora Susan Sontag diz que a fotografia é o “inventário da morte”.
No novo livro eu trabalho com a finalidade de derrubar crenças negativas sobre a velhice. Escrevo sobre a verdade, no sentido filosófico, para mostrar que a terapia antienvelhecimento é uma inverdade. Podemos sim melhorar a aparência, mas não podemos voltar no tempo. Quando uma pessoa aplica o Botox no rosto, ela não rejuvenesce, ela modifica a aparência. Denomino de Síndrome de Frankenstein a modificação do rosto tornando-o com uma aparência mais jovem, ao mesmo tempo em que o corpo mantém seus movimentos incoordenados, típicos da idade mais avançada. Sem dúvida, podemos melhorar a nossa qualidade de vida com exercícios, mas não podemos mudar o processo de envelhecer. Ele é inexorável.
O problema em nossa sociedade é que ela determina que temos de nos mantermos atualizados, fazer um upgrade diário para não estar fora. Não adianta correr, o agora é a única possibilidade.
As pessoas pensam que perder a memória é algo que está circunscrito aos mais velhos. Isso não é verdadeiro. Os grandes vilões para a retenção da memória são: depressão e ansiedade. Se não tivermos atenção não conseguimos reter memória. E isso ocorre em qualquer idade.
No livro eu trabalho com a importância da reflexão. Reflexão é uma postura de humildade, é um dobrar-se sobre si mesmo, é uma postura de reverência. Precisamos ser humildes para compreender o nosso processo de viver. Sem reflexão sofreremos. Chegar aos oitenta anos de idade sem ter refletido sobre cada etapa da vida é levar um susto: “eu estou aqui e nem percebi”.
Eu mesmo percebi que eu era um velho aos 28 anos de idade cronológica, quando recebi uma carta de minha filha na qual dizia que não importava se eu era um homem velho, mas que sim eu era o velho pai dela, e por isso ela me amava. Ser o velho de alguém é muito bom. Agora ser o velho pejorativo é muito ruim, e não devemos aceitar. Ser velho é poético. Imagina se nós falássemos sobre a ponte idosa. A velha ponte se torna uma maneira mais poética de se referir a algo, assim como se referir às pessoas.
É importante trabalhar o interior, pois o corpo é reflexo de tudo em nossa vida. A partir do momento que modificamos a mente nós modificamos o corpo. Em nosso espaço corporal reside o nosso cenário mental. O corpo é a materialização de nossas idéias mentais. Aquilo que acredito ser é aquilo que o meu corpo é. O artista ao pintar uma tela, traz para o espaço em branco a materialização de suas idéias. Por isso o corpo contém a sua história.
Na velhice não precisamos de velocidade. É preciso humildade para saber que teremos outros focos de acordo com a passagem do tempo. O que fomos no passado não significa que precisamos ser no futuro. Somos aquilo que somos no tempo presente. É preciso aceitar o presente. Não digo que seja bom diminuir os movimentos em decorrência a uma doença. Uma pessoa de oitenta anos, saudável, não precisa de velocidade. Ela precisa sim é de foco.
O humor é a cura. Não precisamos pensar na velhice como uma fase triste da vida. É preciso mudar o foco em cada fase da vida.
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aprendido por
Pedro
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Terça-feira, Junho 17, 2008 |
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Quem constrói uma história alcança a imortalidade,
porque permanecerá na lembrança dos outros.
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aprendido por
Pedro
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Segunda-feira, Junho 16, 2008 |
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Dicas para você ser quem você é
É importante saber que a sua presença no presente deverá ser chamada em todo momento.
Dessa maneira surgirá um sentimento de que nada falta, tudo é o que é.
Então:
* Respire profundamente;
* Deixe o seu ego agir à circunstância, enquanto a sua presença é o principal pano de fundo;
* Não valore o que é bom ou ruim;
* Saiba que tudo acabará;
* Respire profundamente mais uma vez;
* Chame a sua presença enquanto faz o que está fazendo: EU SOU;
* Respire e chame a sua presença: EU SOU;
* Saiba que nada existe senão brumas de ilusão;
* Respire fundo, e ouça.
* Se estiver falando com alguém, aquilo que tiver vontade de falar como resposta segure por um instante, e deixe ir, não fale, pratique o silêncio;
* Agora crie outra resposta e, após respirar mais uma vez, diga o que emergir de você.
Continue a praticar.
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aprendido por
Pedro
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Sábado, Junho 14, 2008 |
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Permita ser quem você é, e tudo estará certo
Pode-se ter obsessão pelo futuro, ou se consumir pelo passado. Se o único tempo é o presente, por que querer reservar a felicidade para depois, como comer todo o biscoito e deixar o recheio para o final? Essa é uma neurose obsessiva comum a muitos. Obsessão é repetição. É um modo de pensar e ter dúvidas, racionalizações e, não raro, precauções. O pensamento é corrente do tempo. E quando se pensa muito sobre o nada do futuro o tempo escorre. Silenciar o interlocutor interior para que tudo fique manso é uma boa paragem. O corpo entra em sintonia na mansidão. As portas do templo sagrado se abrirão e surgirá a presença.
Durante a maior parte do tempo, as pessoas estão fora do tempo. A dimensão temporal se inventa e se coloca numa perspectiva sem precipitação. Quem consegue ser alguém sem estar no presente? Ninguém. Quem tenta fugir de si mesmo o tempo todo, nunca se encontra, vive a vida de outros. Por isso tanta preocupação (obsessão) com notícias e acontecimentos.
O desígnio de todo ser humano é ter como referência a si mesmo. Ele pode construir papéis, criar personagens, seguir roteiros escritos por outros, porém um dia ele terá de surgir para si mesmo e contar a sua própria história. Como ela será contada, dependerá de como ele a vivenciou. Nada melhor do que ter a velhice como capacidade de olhar pelo retrovisor do corpo e saber quais as escolhas foram tomadas durante a travessia da vida. Poderia ter sido feito de outra maneira, sem dúvida, pois as escolhas são muitas. Isso não quer dizer que poderiam ser melhores ou piores escolhas, pois a decisão só surge no presente.
Cria-se o hábito e se torna escravo dele. Como pode haver liberdade se você impõe uma infinidade de regras para si mesmo? Saia de uma e veja como você se comporta. Ontem mesmo dizia a uma pessoa, por que você está indo trabalhar se não se sente bem neste momento para enfrentar seus desafios? Ela respondeu, “porque sou responsável”. Se ela fosse responsável saberia acerca de sua incapacidade naquele momento. Então, ela pensou melhor e resolveu ficar.
As escolhas do presente estão dentro de escolhas prévias, baseadas no hábito. Uma vez que eu tenha dito à pessoa para não ir trabalhar, eu dei “permissão”, e ela compreendeu que poderia ser quem ela desejava ser naquele momento. Às vezes as pessoas precisam de permissão para tomar suas decisões. Porém, elas perdem a chance de decidirem por elas mesmas.
Minha amiga ainda não aprendeu a decidir sozinha. Na próxima vez em que ela se sentir mal procurará novamente outra permissão. Se a decisão compromete a ação do corpo de quem decide quanto do corpo do outro que permite, então se algo der certo, valeu a opinião do amigo, se der errado, a culpa foi do outro. Não espere a opinião do outro para você decidir sua própria direção.
Na verdade temos apenas um tempo, aquele que sobrevive dentro de nós como uma esperança de uma novidade a ser descoberta para seguirmos melhor a vereda da vida.
Mas não se preocupe, porque “A neve cai, e cada floco tem o seu lugar adequado.”

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aprendido por
Pedro
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Domingo, Junho 08, 2008 |
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A manteiga pertence a quem?
As pessoas costumam pensar que levar uma vida superficial é mais fácil, o que elas não sabem é que viver superficialmente é também viver pela metade. Não nascemos para viver pela metade, apesar de muitos assim escolherem. Não ter uma vida focada pode ser um grande desperdício de energia. Educar a mente é o caminho. É um exercício árduo, mas importante. As pessoas não precisam de conhecimento para refletir sobre o que estão vivendo. Viver é simples, somos nós a complicar tudo. Muitas pessoas simples levam uma vida mais profunda do que muitos intelectuais.
Nascemos com filtros, e são eles a determinar como levaremos a vida. Lembro-me de uma pessoa a qual brigava com a esposa por ela partir a manteiga. Ele considerava essa forma “errada”. Se a manteiga deve ser cortada ou se a faca precisa discorrer sobre sua superfície é uma questão de aprendizado. Cada um tem o próprio jeito de passar a faca na manteiga. É preciso respeitar as diferenças, pois elas nos ensinam bastante. Não devemos pensar que a manteiga comprada deva ser manuseada como gostamos. Uma vez que compartilhamos com os outros nossas coisas, elas deixam de ser só nossas, elas passam a ser também dos outros que as experimentam. Temos de ser mais flexíveis em nossos relacionamentos.
É um equívoco, e não menos desgastante, aos que pensam que a vida superficial é melhor. Se você pensar profundamente, os acontecimentos mais simples da vida são vividos sem muito esforço. O esforço é contraproducente. Muitos precisam construir métodos para viver porque assim acham que não perdem tempo. Mas o tempo existe para ser perdido! Se não fosse assim, eu não estaria aqui escrevendo sobre isso. Escrevo porque tenho tempo a perder. E hoje sendo domingo e não tendo nenhum outro compromisso, por que não perder o meu tempo, e ficar totalmente envolvido com nada?
Posso ser profundo quando penso em ser superficial, mesmo quando não quero pensar, mas o mais importante é ter a certeza de que posso ter a escolha. Caso ser superficial ou profundo é bom ou ruim, é uma bobagem, o bom é saber que podemos ir de um ponto a outro, sendo o que podemos ser quando queremos ser, sem arrependimentos, é claro.
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aprendido por
Pedro
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Sábado, Maio 03, 2008 |
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João está trabalhando para uma nova mudança do Peregrino Aprendiz

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aprendido por
Pedro
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Terça-feira, Abril 29, 2008 |
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“É doce manter nossa mente fora do alcance daquilo que a fere.”
Édipo rei – Sófocles
Em qualquer processo terapêutico a dúvida é a questão principal a atormentar o terapeuta. Ele não sabe se o que o seu cliente diz é verdadeiro, mesmo porque a verdade é relativa. Ninguém consegue contar uma história puramente fidedigna, pois todas as histórias passam pelo filtro da subjetividade. O que o terapeuta escuta e interpreta como sendo coerente é somente um ponto móvel no horizonte. Igualmente, o que o cliente relata já passou por diversas modificações desde o acontecido. E ainda pode ser modificado a qualquer momento, às vezes pelo sorriso despretensioso do terapeuta ou pelo cenho pensativo dele. Nesse sentido, o que é dito e o que é ouvido se tornam enigmas. É impossível saber o que é verdadeiro tanto para um quanto para o outro.
Contudo, para que as pessoas possam estar em comunicação elas precisam construir juntas uma realidade consensual, e se regozijarem com ela. Se não fosse assim, ninguém se entenderia. Mas o que de fato ocorreu? A verdade do fato será inexistente enquanto os sujeitos envolvidos fizerem suas interpretações. Se as pessoas vivem na linguagem, elas elaboram a situação de modo a compreendê-la melhor. Isso significa que mesmo bem-intencionadas as pessoas fugirão delas mesmas, para alcançar uma outra maneira de ser. A fuga tem um sentido, servir de álibi, para justificar a bondade que elas acreditam possuir.
“O coração humano possui tantos interstícios nos quais a vaidade se esconde, tantos orifícios nos quais a falsidade espreita, e está tão ornado de hipocrisia enganosa que ele com freqüência trapaceia a si próprio”
Ítalo Calvino
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aprendido por
Pedro
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Terça-feira, Abril 08, 2008 |
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Marca de 100
Cheguei finalmente à marca dos 100 kg. O peso do corpo é angustiante, não em termos de estética, e sim com relação à minha trajetória de vida. Isso pode ser um mau agouro. Só estive doente duas vezes em toda a minha vida, aos quatro anos de idade ao contrair estomatite, e aos trinta e um por causa de uma erisipela de nariz. Algum tempo atrás esse peso seria impossível, pois a minha preocupação de estar gordo como os membros de minha família era angustiante. Hoje, não sei por que deixei de lado a minha preocupação. Apesar de tentar não consigo emagrecer. Minha médica até desistiu de mim. Nunca desisti de nenhum de meus pacientes. Porém, vejo nisso uma oportunidade de encontrar um caminho. Após meses escrevendo e me estressando para dar o melhor de mim, fui engordando até chegar aqui, aos 100 kg. Muitas pessoas dizem que isso não é um problema para mim, porque sou alto e com ossos largos. Mas e minhas veias, será que elas são largas para conter tanta gordura? Este é o problema. Se eu engordasse sem ter problemas não ficaria preocupado, mas existe algo que não está bem, pois não me sinto satisfeito. Então, se existe insatisfação, existe com certeza um caminho de contramão. Nada pode fluir livremente sem satisfação. É importante pensar o que está ocorrendo no momento presente, e verificar quais as escolhas estamos fazendo. Se você me perguntar se tenho comido muito, posso dizer que não, mas isso não importa pois nem sempre precisamos comer muito para estarmos mais gordos. Minha mãe era enorme e ela tentava comer menos, porém não conseguia porque a comida dava significado para ela. E ela morreu de tanto comer. Será que precisamos comer tanto a ponto de morrer insatisfeito com a vida? Não sei responder ainda, mas tentarei...
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aprendido por
Pedro
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Sábado, Março 22, 2008 |
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No caminho da Páscoa
Ao escrever qualquer texto em que cito o nome de Jesus, gosto de deixar claro que o vejo como Homem, porque assim sinto-me mais à vontade para falar sobre ele. Embora não duvide de sua divindade, prefiro pensar nele como o homem na história, o homem mitológico, o arquétipo de Deus, o mestre e seus ensinamentos. Prefiro acreditar em Deus como FLUXO, que está em toda parte e se constitui como uma totalidade. Portanto, Ele está aqui, como está aí. Não existem disjunções ao se referir à divindade.
Ontem, como sempre faço na sexta-feira da Paixão, assisti ao filme de Mel Gibson. O filme é de uma beleza inconteste, com fotografia sensível, música deslumbrante, atuações vibrantes. Um filme que acerta o alvo, portanto não peca. Apesar de marcante, Gibson mostra um homem além dele mesmo, forte porque não declina às opiniões alheias, um homem compromissado unicamente com Deus. Jesus, pela ótica de Gibson, é mais do que carne fresca, ele é espírito à flor da pele.
Enfim, ao tentar estar só em meus devaneios metafísicos, ontem foi um pouco mais difícil porque chegou visita, e quiseram assistir ao filme comigo. Tudo bem, até o menino de oito anos de idade começar a fazer perguntas sobre o que ia acontecer. Fiquei perplexo. Nunca conheci ninguém que desconhecesse Jesus, o Cristo. Pois é, o menino não conhecia. Perguntei a mãe dele porque ele desconhecia Jesus, ela me respondeu que eles não são católicos. Meus Deus! Fiquei mais uma vez perplexo, tendo de dizer que ninguém precisa ser católico para conhecer uma figura histórica. Ninguém precisa ser budista para conhecer Buda. Apesar de verificar que muita gente acha que Buda é somente a imagem que se coloca em cima da geladeira, como um pingüim, de costas para a porta para atrair dinheiro.
As pessoas estão cada vez mais ignorantes e refratárias em relação aos personagens históricos e religiosos. A família que assistiu ao filme comigo é de classe média alta, com formação acadêmica, trabalho promissor, e residem na capital. Não estou falando de pessoas sem condições, analfabetas de informação.
Eu até poderia compreender se o menino não conhecesse o Mahabharata e os ensinamentos de seus personagens. Imagine, se a própria palavra Mahabharata não é reconhecida pelo dicionário do meu computador (ao contrário, as palavras "Bíblia", "Ilíada", "Escrituras", "Evangelho", todas foram reconhecidas), então como pensar que o menino conheceria. Posso também aceitar, porque o Mahabharata não faz parte da nossa cultura ocidental. Agora, desconhecer um personagem histórico de nossa civilização, um homem que transformou a nossa linguagem e sentimento, é muito impactante para mim.
Estamos vivendo uma época do superficialismo cuja ignorância fere e oprime, podendo até matar. As pessoas rejeitam o conhecimento como rejeita ler o horóscopo diário dos jornais. Infelizmente acham muitas vezes que o horóscopo é até mais importante. Se as pessoas não querem conhecer, então experimentar o conhecimento nem se fala. Elas se sentem desobrigadas a isso. Querem mesmo é pensar nos Games (outra palavra que foi reconhecida pelo computador), nos programas imbecis da televisão, nos personagens do cinema. Estamos de fato perdendo o nosso mito, o grande construtor de possibilidades.
Eu, como terapeuta, atendo a muitos sofredores. Lido todos os dias com almas corrompidas, com a hipocrisia do amor, justificativas sem fundamento, hostilidade da vingança, o peso da culpa, flagelo da incompreensão, dores incessantes na carne. E percebo que a fragilidade e vulnerabilidade humanas não são compreendidas porque as pessoas são prepotentes e recusam a humildade. A cura está em dobrar-se, ficar de joelhos sem ser humilhado, e reverenciar o poder do sagrado. O corpo é um templo, e nele tudo é possível.
Uma postura rígida carrega a dor, porque resiste ao FLUXO. Teimosia e orgulho nos tiram da meta. Não podemos ser o que não somos. A natureza humana é o que é. Não podemos ir além da forma se não estivermos em postura de reverência e contemplação. Por isso, na Paixão de Cristo, penso que Jesus foi um grande mestre a nos ensinar que podemos ser sacrificados ao rejeitarmos a verdade. Do mesmo modo, podemos querer sacrificar os outros, porque eles nos incomodam.
Então eu penso no menino de oito anos, que aprende a ser forte pelos heróis dos Games, dos policiais da Tropa de Elite, dos justiceiros mascarados. E quem foi Jesus, Buda, Krishna, Shiva, entre muitos outros? Ele não saberia dizer, pois estes não tinham os super poderes dos principais heróis dos quadrinhos. Espero que este menino, quando não for mais um menino e for um velho, tenha aprendido uma lição. A lição que nos ensina que a Fé é o exercício da paz, o Amor o caminho da redenção.
Tenham uma Páscoa Consciente...
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aprendido por
Pedro
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